segunda-feira, outubro 05, 2015

.Isso de endurecer.



Escrever sobre sentimentos nunca é fácil. 
A gente mistura o que é nosso, o que é do outro e até o que faz parte de quem lê.
Abre feridas, inventa umas cicatrizes e deixa sangrar...
Eu sempre gostei de escrever sobre o que estava sentindo. Mesmo que esse sentimento não estivesse exatamente dentro de mim. Inventar dores e risos faz parte do cotidiano de quem escreve.
Mas hoje, vendo coisas que eu escrevia antes, me perguntei quando e por que eu parei de falar sobre isso.
Foi então que me dei conta que endureci. 
Como foi que eu, justo eu, deixei isso acontecer?
Como pude parar de falar sobre as horas, sobre o café que esfria, sobre a casa antiga, a grama verde e os ipês amarelos?
Eu não poderia ter feito isso comigo. 
Guardei meu pinguim imaginário numa caixa, parei de passear em livrarias. Quando foi que eu deixei de sentir o aroma da feirinha?
Remexi no passado buscando algo que não sabia direito o que era e só agora me dei conta que eu estava procurando por mim mesma esse tempo todo.
Eu não deveria ter sido tão negligente comigo mesma...
Me permiti vestir armaduras todas as manhãs, sufocando aquela menina boba que sonhava tão colorido.
Boba fui eu de abandoná-la. 
Eu mergulhava em lagos de gelatina, eu conversava com plantas, eu dava bom dia, eu não dormia. 
Eu guardei tudo isso pra que?
Sem atalhos agora. Lá vou eu pelo caminho da grama, pra me encontrar outra vez....

terça-feira, março 10, 2015

Querida eu mesma de 10 anos atrás...



Querida Eu mesma de 10 anos atrás,

Resolvi te escrever pra te contar como andam as coisas por aqui.
Hoje em dia você trabalha em um lugar super legal. Você nunca iria imaginar, mas não vou te contar pra não estragar a surpresa.
Você deve estar indo pra faculdade a essa hora e pensando "isso não é pra mim". Pois é, não é mesmo. Mas você vai fazer alguns (poucos) bons amigos aí, então engole esse choro e continua (até trancar. sim, você vai trancar mesmo).
Anote as receitas da sua vó Diva. Ela em breve não vai lembrar de nada. Fique mais tempo com ela, mesmo quando ela não lembrar de nada, pois muito em breve ela vai partir e você só vai ter esses pequenos momentos em que ela lembrava de alguma coisa pra se segurar.
A vovó Zayde vai partir logo também. Largue de mão as brigas com papai e continue comentando como as violetas dela são bonitas perto da janela. Papai não vai lembrar de regá-las depois que vovó se for.
Vai doer. Vai doer muito quando dona Ide se for. Pra ser sincera, aqui, 10 anos depois, continua doendo. Mas vá ao mercado passear com ela quantas vezes ela quiser. E saiba que a última coisa que ela ouviu de você foi "eu te amo". Isso vai te aliviar nos momentos difíceis...
Esse cara aí que você acabou de conhecer: não é ele não, vai por mim. Mas chore por ele (você vai chorar muito, mesmo). Um dia, por causa dessa mágoa, você vai criar um blog. E outro blog. E aí você vai virar blogueira. O que é ser blogueira? Calma, você vai descobrir.
Trabalhe muito, um dia você vai colher frutos disso, por mais que hoje você não tenha perspectiva nenhuma da sua vida, isso vai tornar você uma pessoa melhor. (tenta guardar algum dinheiro, se for possível).
Vão ter outros caras que vão te fazer chorar, mas também não é nenhum deles não. Você vai saber reconhecer o seu amor quando ele chegar, acredite.
Você vai ter um filho, sabia? E uma casa bem legal. E um marido que vai compartilhar todos os seus sonhos ao teu lado. (não te disse que esse cara aí de 2005 não era pra você?)
Evite brigar tanto com a sua mãe. Agora, esse Eu de 10 anos depois aprendeu que ela estava certa na maior parte das vezes e um dia você vai se pegar falando as mesmas coisas para o seu filho. Arthur o nome dele. Ele é uma criança incrível, você vai se apaixonar todos os dias cada vez mais por ele. Lembre-se de esgotar seu leite quando for amamentar. Ninguém vai te contar isso, mas dói pra caramba quando ele empedra!
Bolão da copa de 2014: Alemanha 7 x 1 Brasil. Não me pergunte como.
O dólar tá custando mais de 3 reais. Compre muito dólar quando tiver barato, essa pode ser minha melhor dica.
Quando você for casar (sim, você vai!!!!) tira aquele aspirador sem fio da lista. Não aspira nada aquela porcaria! Pede aquele outro que aspira até água. Vai ser útil, pois seu filho e suas gatas (sim, você tem duas gatas!!!!) vão derrubar muitas coisas líquidas no chão.
E repense sua lista de convidados. Sério.
Eu sei que as coisas tão muito difíceis pra você agora. Mas elas melhoram, melhoram muito. Você pode achar que no momento nada de bom vai acontecer pra você e que você não é boa em nada. 
Não deixe ninguém te dizer isso nunca! Nunca permita que ninguém te bote pra baixo, essas pessoas nem vão estar na sua vida em 2015, então não ligue mesmo...
Não se sinta tão sozinha também. Você vai conhecer pessoas incríveis nesses 10 anos. Algumas irão embora, outras vão ficar. Mas a vida é assim, não é mesmo? Continue dizendo "eu te amo" antes delas partirem, pra que quando isso acontecer (e vai) esse adeus se eternize em amor.
De qualquer forma, lembre-se de pedir o caderno de receitas pra vó antes dela partir. Talvez assim a gente tenha aprendido a cozinhar alguma coisa agora...
PS: não pinta o cabelo de ruivo e use calças mais acinturadas. Você vai sentir falta de uma cintura em 2015.
Com amor,
Bianca.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

A paz do fim



Li um texto hoje e me lembrei imediatamente da minha vó Diva.
Engraçado é que lembrar dela é justamente falar de memórias...
Ao fim, ela já não lembrava mais de nada. Nem de mim, nem dela. Um vazio que foi roubando tudo, devastando até sobrar um par de olhos azuis me olhando e tentando se reconhecer.
Eu sempre tive medo do tempo levar o rosto dela de mim, de ter que fazer esforço para lembrar como ela foi. 
Que com o passar dos anos sem ela, a memória me traísse quando eu tentasse fechar os olhos e a enxergar novamente.
Mas eu lembro de tudo como se fosse hoje. Do cheiro dela, os trejeitos que volta e meia reconheço no meu próprio filho. A coçadinha no nariz que ele faz igual e o jeito que ele mexe as mãos como ela fazia. Laços fortes que ele mal sabe que carrega.
E as vezes quando sinto o cheiro dela pela casa, cheiro de café fresquinho e geléia de uva fervendo no fogão. 
Quando sinto o cheiro do sabonete dela, quando vejo uma roupa estampada que ela adoraria, quando me pego na cozinha quase ouvindo a voz dela comandando: - não misture os panos!
E assim ela volta um pouco pra mim.
Difícil era se despedir de alguém que ainda estava vivo, pois cada dia de Alzheimer é um dia de despedida. É perder a pessoa que você mais ama ainda ali, na sua frente, esvaindo...
Hoje me bateu uma saudade violenta. E é triste dizer que eu tenho que me esforçar mais pra lembrar dela antes da doença. 
É ter que voltar no tempo pra lembrar dela quando ela ainda lembrava de mim.
Um luto que foi tão esticado até arrebentar o coração e chegar ao fim.
E ter mais dela agora em lembranças do que havia ao final de tudo.
Mas me lembro como se fosse hoje, em um dos nossos últimos momentos ela me olhando, me reconhecendo e me dizendo: 
- A saudade nos leva pra perto de tudo aquilo o que amamos.
Lá no fim eu a tive de volta, eu e ela com uma última lição.
Ela estava lá o tempo todo, tive a certeza.
Do fundo da alma, em um suspiro de paz eu soube ela vivia aonde havia amor. 
É o ciclo. 
Ela esteve ao meu lado nos meus primeiros passos e eu estive lá quando ela não sabia mais andar.
Ela estava lá enquanto eu aprendia a falar e eu ao lado dela quando ela esqueceu as palavras...
No meu primeiro banho e em seu último banho.
Em meu grito de olá ao mundo e o a sua silenciosa despedida.
E todos os dias eu me lembro de tudo o que ela é em mim. E não quero esquecer. Não quero esquecer.
E se um dia a memória me falhar também, saibam que estarei ao lado dela, perto de tudo o que amei.

ps: o texto que me lembrou da minha avó aqui. obrigada pela inspiração =)

quarta-feira, dezembro 18, 2013

. Aqueles passos.


Quantos passos eu dei até chegar em você aquele dia?
Quantos segundos se passaram até que eu pudesse ter os seus braços em torno de mim?
Não sei. Uma vida? Várias outras?
E num olhar eu te conheci. Te reconheci. 
"Meu coração é teu". 
As flores, as luzes acesas. As pessoas passando por mim enquanto eu via só você ali no outro canto a me esperar.
Ah, que espera. Depois passou tão rápido...
Quantos dias pensando se eu encontraria aquele alguém. Quantas noites imaginando como seria o seu rosto. Como seriam nossos dias?
A verdade é que mal lembro de como era tudo antes de ter você.
Aquela noite, aqueles dias. 
Até que chegamos enfim. 
As músicas escolhidas para embalar nossa caminhada. 
"Mas eu estarei lá pra você enquanto o mundo desabar" 
Meu vestido branco, as rendas, cada camada da saia, o terço da vovó que tinha que entrar comigo.
Meu pai e meu filho me levando até você.
Já eramos uma família, mas ali viramos nós três.
Corações flutuando pelo salão e eu nas nuvens...
Foram tantos dias até que aqueles corações pudessem flutuar, tanta fita, tanta seda, tanto tule, tantos arranjos de flor.
"Eu morri todos os dias esperando você
Amor, não tenha medo
Eu te amei por mil anos
Eu te amarei por mais mil.."
O caminho foi mais longo que aqueles passos até o altar, porque eu caminhei a vida toda pra chegar ali, naquele momento, com você.
E tinha que ser você, era pra ser. Sempre foi.
E eu não consegui falar, porque ironicamente, justo eu, perdi as palavras aquele dia. Mas deixei escrito nos meus votos e nas cartas de amor e hoje eu repito:

"Não vou fazer nenhuma promessa pra você hoje, além de te amar como eu sempre te amei, nesta e quem sabe nas nossas outras vidas. Estarei sempre te esperando para que você olhe na minha direção e eu saiba que ali, frente a frente, olhando nos olhos um do outro, este é o nosso lugar no mundo" 



segunda-feira, março 11, 2013

.Cartas para meu filho Arthur.

Olá, meu filho.
Faz tempo que não passo por aqui para te contar as coisas todas.
Talvez eu não tenha mais tempo de escrever justamente por querer te falar tudo o tempo todo. 
Talvez por dizer pra você que eu te amo e te abraçar ocupe boa parte do meu dia.
Você está se tornando um menino lindo. Um ano e meio já se passou desde que te abracei pela primeira vez.
E é incrível o encanto que sinto ao ver que a cada segundo você aprende uma coisa nova.
Aprendeu a respirar, aprendeu a mamar, aprendeu a segurar a mamadeira sozinho, a mastigar, bater palmas e a sorrir. 
Aprendeu a andar e agora corre. Corre, sorri e bate palmas, pois agora já sabe fazer tudo ao mesmo tempo. 
Aprendeu que cada vez que chora eu corro pra ver o que te acontece.
Nesse tempo juntos, você já me ensinou tanto...
E tenho certeza que cada aprendizado teu é uma coisa a mais que eu aprendo também.
E agora você já dá até tchau para as pessoas.
A vida, como a vida é.
Você com tão pouco tempo já teve que aprender a se despedir também.
Da madrinha do papai, que foi pro céu antes de poder te ver sorrir pela primeira vez.
Se despediu da Bertha, nossa gatinha, cujo nome foi a sua primeira palavra. Você a abraçou, disse "cau cau (tchau tchau)" e ela se foi.
Esses adeus fazem parte, meu amor. Mas os olás todos também
Agora você já sabe tanta coisa, as vezes me pego surpresa por ver você fazendo algo novo sem eu ter certeza que te ensinamos ou você descobriu sozinho.
E com você eu descobri o que é ter saudade até quando você está dormindo. É engraçado, enquanto você dorme eu fico esperando ansiosa você acordar pra matar essa saudade tão imediata que eu sinto.
E quando me diziam que esse amor só aumenta a cada dia, não achava que seria possível te amar mais.
Hoje eu te digo: a cada segundo eu te amo mais e mais e mais, um amor que as vezes acho que não vai nem caber em mim.
E então de repente, escuto um "mamamamamaêêêê" e percebo que você já aprendeu a amar também.
Quando acontece algo que faz você se assustar, você corre para abraçar eu e o papai, pois você já sabe que aqui nos nossos braços é o lugar em que sempre estará protegido e amado.
Assim vamos vivendo, cada dia é uma viagem incrível cheia de palavras, passos e brinquedos pelo chão.
Você mudou a minha vida, meu amor. Agora eu sei.

"Mas o tanto que eu levar de você, eu deixo um pouco pra me misturar. E não descanso pra você dormir" 

E a minha casa é pra onde vão seus pés.



domingo, agosto 12, 2012

Melhor Pai

"Vamos ser pais" "Tá ali ó, dois risquinhos na fitinha"
Foi assim que tudo começou. 
Não, minto. Foi muito antes.
Começou numa madrugada meio estranha, em um pronto socorro em que você, muito nobre, me ajudou e mesmo sem me conhecer, se ofereceu a acompanhar minha mãe meio maluquinha intoxicada pelo corante de um doce. Sim, um doce muito vermelho que trouxe você pra mim.
Não, acho que na verdade tudo começou antes disso. 
Acho que começou em outro lugar, mesmo sem a gente saber.
Porque o meu amor já estava ali, esperando para você regá-lo e colocá-lo na luz pra ele brotar.
E assim é. 
Hoje é o dia que talvez você, mesmo sem saber, tenha esperado a vida toda pra comemorar.
E você cumpre esta missão com tanta destreza que tenho certeza que nasceu pra ser pai.
Eu não poderia ter escolhido melhor alguém pra passar o tempo, quem sabe os anos, e espero que a vida ao meu lado.
Todos os dias da minha vida eu esperei pra estar exatamente aonde estou agora. E todos os dias eu espero você feliz, chegar.
Seu filho tem tudo de você. Os olhos, a boca (e espero que o cabelo lindo também). Tem seu jeito também. 
E olhar ele, tão esperto, tão ávido por tudo nesta vida, é te ver em dobro e eu fico imensamente grata por isso.
Você e ele são a melhor parte da minha alma. Vocês dois são tão um que as vezes eu acho que são uma alma só que se encontrou.
E você é o melhor pai do mundo, tenho certeza. 
Todas as fraldas, as papinhas, os banhos, as brincadeiras e esse teu orgulho estampado e óbvio no teu rosto, é a maior alegria que eu tenho. Pois tenho certeza que nunca estaremos sozinhos. Tenho certeza que o Arthur encontrou um amigo pra sempre e isso, nada nunca poderá mudar. É isso o que me dá força e paz.
E eu morro de orgulho do pai que você se tornou. Que você sempre foi, desde o começo, que não sei ao certo quando foi.
Eu te amo, isso você sabe. E eu só tenho a agradecer por todo o amor que você nos dá, por você ter me dado o maior presente do mundo, por você ser o melhor pai. 
E agora espera que uma pessoa quer falar alguma coisa também:

ughx  g fngiytrcsdfiljubhygtvfrdxdfcv hj  xc vc  j7mnkln,  mujhhhhhhhhhhhhh        

(sim, eu deixei ele apertar o teclado hahaha e aposto que nessas letras todas ele tentou escrever: TE AMO, PAPAI)

sexta-feira, julho 13, 2012

.odeio ódio, amo bacon.

Odeio acordar cedo. Amo bacon.
Sempre odiei acordar cedo, mas nao me lembro de amar tanto bacon antes do instagram.
Nao me lembro de odiar tantas coisas antes da internet.
Será que a internet está nos causando mais ódio? Será que realmente odiamos tantas coisas assim?
Será que esquecemos que o contrario de gostar é simplesmente não gostar?
Não gosto de maçã na maionese, não gosto de água com gás, sem gás.
Não gosto de pimentão.
Mas gostar mais de Nescau não significa que eu odeie o Toddy.
Gostar da Madonna não significa odiar a lady gaga.
Ódio nos torna intolerantes. Intolerância nos torna burros, porque é burrice escolher um lado numa guerra que nao existe.
"sempre odiei tal pessoa da internet"
Opa, sempre? Mas em qual dos zero encontros que teve com esta pessoa exatamente você passou a odiar? 

Para odiar, é necessário conhecer, para saber no seu íntimo o que foi que este outro causou em você.
Antigamente ódio era para poucos, amor tambem, como deveria ser.
Estamos banalizando o ódio.
Odeio acordar cedo. Odeio quando o despertador toca. Odeio segunda-feira. Odeio quando eu to odiando algo e alguém não odeia tambem.
Tanto o ódio quanto o amor elevados a máxima potência dos sentimentos banalizados.
Lembro que quando eu era criança, amava os backstreet boys.
Amava, tinha cartazes deles colados na porta do armário e sonhava secretamente em casar com o Nick.
Mas era isso. Sabia as musicas, aprendi as coreografias, mas era isso.
Hoje nao basta amar. Tem que idolatrar o ídolo. Nao basta ser fã, tem que ser fanático por ele.
Não basta gostar, tem que xingar quem nao gosta.
Odeio quem odeia a Cláudia Leitte.
Eu odeio, tu odeias, ele odeia.
Todos nós odiamos mais depois da internet.
Tudo extremo. Tudo extremamente raso.
E nesse tanto céu ou tão inferno, ficamos presos num limbo de pequenos ódios gratuitos.  

Banalizamos tudo, até o ódio. Ninguém gosta mais, gostar é feio.
Nao gosto de você, então odeio.