segunda-feira, junho 16, 2008

[Quintal de pedra]


A casa onde nasci está prestes a ser demolida. Junto com ela, boa parte da minha história vai cair em meio aos tijolos.
É a sina das casas velhas. E das infâncias felizes também.
Minha infância foi cercada de expedições pelo jardim. Ela tinha um quintal imenso e cada primo tinha uma árvore que era só sua. A minha era a macieira, pois eu era a única menina e ela era a mais fácil de subir.
Meu primo caçula sempre reclamou da sua árvore. Ele ficou com o limoeiro que, cheio de espinhos, não permitia a sua escalada.
Aquele quintal era incrível. Tinha a piscina que nunca era cheia, ela era de pedra, em formato de 8. Rasa, mas eu nunca sequer nadei nela. Somente nas folhas das árvores que invariavelmente caiam lá dentro. Ao lado havia o galinheiro da minha vó, onde todas as manhãs o galo perdia a hora de cantar. Tinha também o balanço que foi retirado após uma cicatriz eterna na testa do meu primo.
No pé de ameixa foi construída a casa da árvore. Sim, eu tive uma casa da árvore e ela tinha até um alçapão e uma escadinha pra subir.
Tinha o gramado onde minha vó corava as roupas todas as manhãs. Deixava o varal colorido e brigava com o vento que derrubava as roupas limpas no chão.
Tudo naquela casa lembra a minha avó.
O cheiro de café que marcava as cinco horas se espalhava por toda a vizinhança.
As festinhas de aniversário e os bolos de morango que ela preparava.
Minha casa foi o grande feito da minha vó. Ela foi feliz e infeliz lá. Ela viveu seus momentos de maior amor e de maior solidão naqueles corredores enormes.
A primeira vez que sonhei com a minha avó após a sua morte, eu a vi na cozinha daquela casa. Ela estava linda, estava realmente linda. E feliz como não me lembrava de tê-la visto em vida.
Já falei em algum texto sobre a mente dela ter ficado na casa, pois logo após a sua venda, e a mudança para a casa da minha tia, uma doença cruel e implacável roubou as suas lembranças todas.
Sinto uma falta enorme de abrir a janela e ver o pé de abacate que insistia em invadir o meu quarto. O salgueiro chorão onde a minha tia estudava. O platanus onde meu pai fez uma declaração de amor à minha mãe com canivete.
Todas aquelas árvores que contavam um pouco da história da minha família.
Como primeira providencia, logo após a compra, o novo proprietário tratou de cortar todas as árvores e cimentar a grama falhada e velha do jardim. Tapou a piscina e derrubou o galinheiro.
Cortou pela raiz um pouco de todos que moravam lá. Cimentou boa parte das lembranças da minha infância.
A casa que tinha vida própria se perdeu no tempo.
E a minha avó ainda mora na parte bonita dela.

4 comentários:

invasores disse...

e la vai lá e coloca olhos nas lagrimas dele. pra nao dizerem
q ouviram por ai que o ramone andou chorando assim...

invasores disse...

lindo

Victor Meira disse...

"O platanus onde meu pai fez uma declaração de amor à minha mãe com canivete." hahahaha, dessa história eu não ligaria de saber mais...

Mas legal, bonitinho o texto, singelo, de meninoca.

carol~ disse...

digo e repito; eu entro em cada linha que leio..