domingo, fevereiro 11, 2007

A Pipa do Vovô (Laço)

Quando eu nasci, um anjo louco – insensato – um desses mártires, disse: - Nasce. Mas nasce pra ser estopim!

Qualquer semelhança não é mera coincidência, e não há a dita coincidência.

Ah, quando eu nasci estava escrito que, segundo previsões, teria alguns probleminhas por aqui.

E por isso me enviaram para os braços dos meus avôs: - Sim, eu fui criado pelos meus avós! E não há vergonha em dizer, e também nenhuma frescura dita pelas piadas por aí.


A Bic me tocou com suas palavras, e me fez lembrar de uma pessoa muito querida que partiu no último ano; o meu avô Adjalma, que me criou e foi mais que um avô para mim.

Sua personalidade, de um ‘q’ brusco e cativante, é o tipo de coisa que não se pode medir em palavras. - Ainda assim, tentarei.


Para mim, meu avô era tão grande, que fingia ser um cavalo. E de fato, sua força pôde ser comparada à força desse animal. Ainda em seus últimos dias, quebrou os aparelhos que o ajudavam no hospital, queria sair de lá e ir para seu sítio. Havia pedido para mim, e para a minha avó para que levássemos apenas o seu boné, que era apenas o que ele precisava para se proteger em sua fuga. Era um desses tipos de garotos que a idade dizia o contrário. - Ah, saudade... Era o bom boêmio, de fala mansa para conquistar a presa, e de voz grossa para sobreviver. Sabia como ninguém conquistar; isso diz a minha avó. E falhas de caráter à parte, e um casamento a prova de instintos, diziam os parentes no velório sobre outras mulheres. Era bom de rimas, cantava as valsas de sua época, e de modo bem sacana mudava as rimas. Fazia os netos rirem, e para os meninos ensinava o que era uma xota em seus mínimos detalhes. Era um bom sacana, de fato.

Deixou oito filhos registrados, e um de coração. Sete netos homens de saco roxo, como dizia. Quatro netas meninas, e dois bisnetos. E contribuiu muito bem para a superpopulação mundial, era um ‘manga-larga’ reprodutor.

Filho de espanhóis, chegara muito cedo no Brasil, e desde cedo carregou muitos fardos. Não sei se é do conhecimento de muitos, mas em algumas famílias, só o primeiro filho têm direito à herança; e assim foi com ele. Seus pais o deixaram cedo, pouquíssimo tempo após a infância. E ele teve de se virar; deixou a fazenda da família no interior, e embrenhou na selva de pedra atrás do seu. Já na vinda para o Rio de Janeiro, pegou um trem, e esse trem descarrilou. Quebrou as duas pernas, e ainda tinha de se virar; contava-me. Eu ficava fascinado com suas histórias, ao contrário dos outros netos, que ficavam com sono ao ouvir. E queria que ele sempre repetisse, e como um papagaio, repetia para outros. As histórias tinham os mais diversos cunhos, do fantástico ao triste. E a passagem pela boêmia... Minha nossa senhora! Eu aprontei muito, mas que nem ele é impossível! Meu avô chegou a ser internado num manicômio; umas das minhas histórias favoritas. O que aconteceu foi o seguinte: Meu avô realizou um trabalho para a prefeitura do Rio, a qual não quis pagar. Foi durante a ditadura. Ele havia ficado sem dinheiro nenhum após realizar os trabalhos para a prefeitura, e a família passava por necessidades. E num ato de fúria, pegou seu revólver trinta e oito, foi até a sede da prefeitura, e lá descarregou a arma. Por sorte - e falta de mira - não acertou ninguém. Quando ia ser preso, num ato de inteligência, minha avó pediu exames de sanidade e alegou que vovô era insano. E nessa cartada, ele passou por louco, ao invés de futuro preso político. Era o ano de 64...

Sua vida foi marcada por incidentes com arma. Ainda garoto, contava-me que fora ver uma menina e o pai dela o expulsou com tiros, acertando a sua perna. E isso me animou muito, quando contou novamente e eu estava deitado numa cama por ferimento à bala, devido à violência.

Eu realmente não sei por onde ir com esse texto, pois é impossível ser breve, e lógico com tantos sentimentos vindo à tona. Por último, gostaria de dizer o que aconteceu no seu último dia de fato.

Foi uma semana difícil, estava em provas na faculdade, com meu avô internado e o mundo me cobrando. E estudo num bairro distante do hospital onde meu avô foi internado, e sempre fazia o possível para ir vê-lo. E quando chegava, ele conversava perguntando das meninas, se eu as estava cativando corretamente, e dos planos para quando eu me tornasse advogado, e para que mesmo me formando, não deixasse a música de lado, e ainda adentrasse a fundo na política como vinha fazendo por influência de um Brizolista. Ficava me falando sobre as enfermeiras e o quanto amava a minha ‘Vó’, a qual se referia como ‘minha véia’. - Mas não deixava de notar a bunda das enfermeiras... As pessoas do hospital terminaram bem intimas da minha família pela forma como meu avô se relacionava, ele fazia com que os médicos rissem, e as enfermeiras sorriam sempre, levando numa boa qualquer brincadeira. As pessoas ficavam emocionadas por alguém com tanta vontade de viver, ele simplesmente quebrou ‘uns’ vinte mil reais, ou mais em equipamentos hospitalares. Ficava uma fera por ‘atrapalharem’ sua liberdade... E hoje, é algo que eu entendo...

Na última noite, só duas pessoas puderam vê-lo; depois de muita insistência após os diagnósticos... Eu e a minha avó. A minha avó o viu primeiro. E ainda teve força para me levar até o leito, me deixou a sós com ele; que estava sedado e imobilizado, para que não se machucasse quebrando aparelhos.

E ele sussurrou baixinho:

- Viver...

Na madrugada após, eu não consegui dormir, permiti-me chorar feito uma criança. Sabia que ele estava deixando a forma compreensível.

Acordei cedo, senti uma baforada estranha e quente na nuca. Ele costumava fazer isso para me irritar... Levantei, tomei um banho. E o telefone tocou, minha mãe saiu correndo de casa para encontrar minha avó e meus tios, pois haviam ligado do hospital.

Eu não chorei até o velório e fiquei pensando se o que ele havia me dito era um conselho ou uma vontade. Percebi que eram os dois, e dei início à salva de palmas.

Quando eu nasci; eu já sabia. Que um dia haveria fim.

Um comentário:

Bic disse...

esses textos sobre a nossa história emocionam mesmo.
É bom lembrar daonde viemos...e saber que eles são parte do que somos agora